Estive uma
tarde inteira em casa de uma família iraquiana. Só me é possível ter acesso a
este tipo de experiência por estar a viver em Londres. E apesar das óbvias
diferenças culturais entre mim e a anfitriã, há um denominador comum: a
distância às nossas raízes, a falta do sol e as lágrimas.
Ambas
sentimos o mesmo: a mesma angústia pela distância do que é verdadeiramente
nosso, com o que nos identificamos; ambas reconhecemos que a opção que tomamos
nos tem trazido uma estabilidade financeira que não teríamos encontrado nos
nossos lugares, no caso iraquiano, uma segurança física também, mas não nos
conforta completamente, nem nos seca as lágrimas. E este sentimento não tem
nacionalidade, raça, credo. É universal!
A
incompreensão dos que ficaram e nos viram partir deixa-nos ainda mais tristes e
com vontade de berrar aos quatro cantos do mundo que a estabilidade financeira
é importante sim, sobretudo quando temos a responsabilidade da maternidade, mas
não é tudo! Claro, é o mais importante, ou não estaríamos nós fora, mas não
diminui a dor da distância nem a vontade do regresso. E essa responsabilidade
também nos traz uma vontade maior de regressar ao local onde podemos dizer
aos nossos filhos onde crescemos, onde são as ruas por onde passeamos tantas
vezes. Intuitivamente sonhamos vê-los crescer nos mesmos locais.
Tenho a
maior vontade de falar a todos os que estão onde pertencem que aproveitem!
Aproveitem bem e sintam-se especiais por isso. Sintam que são privilegiados por
poderem pisar o local que vos reconhece. Não somos somente nós que reconhecemos
o local onde nascemos.
A mudança
para outro país fez-me amar o meu canto (à beira mar plantado), fez-me ter (mais)
orgulho no que sou, nas minhas origens, querer fazer parte dele. Fez-me acordar
para o que sou. Faz-me também, por vezes, detestar tudo o que não é meu,
repudiar as diferenças e sentir-me sempre deslocada, desconfortável, ter
atitudes que sempre critiquei veementemente. A bem da sobrevivência,
no entanto, tive de adoptar essas atitudes como defesa rotineira. Porque sou mais uma no meio de
tantas outras origens! Sou mais um ser individual que não faz parte de nada.
A mudança
para outro país transformou a minha casa. A minha casa passou a albergar um espaço
linguístico e territorial imenso e com um sentido mais abrangente, onde entendo
os olhares sem precisar de explicações verbais, onde sei reagir sem receios,
onde sinto que faço parte.
Se me
perguntarem do que não gosto onde estou, não encontro as palavras certas, nem
consigo definir o que não gosto. Não gosto de nada, mas sinceramente não tenho
razões para não gostar. A razão, essa, não tem tanta importância para mim,
porque o que sinto é mais forte, e sinto que não sou daqui.
O meu
sentido sul pode ser adiado, pode não acontecer no momento que eu quero, mas
está marcado no calendário!